Archive for August, 2010

Dia do Blog

Tuesday, August 31st, 2010

Bom, disseram por aí que hoje é o dia do blog. Aproveitando a deixa, mando o link para uma matéria entitulada “Como ser índo” do EpicShit, o blog recomendado de hoje.

Curanderismo e fé na ciência

Thursday, August 26th, 2010

(isso originalmente foi um e-mail enviado à minha família mas, na falta de assunto melhor para por aqui e, dado que tem mais gente sabendo disso que apenas minha família, creio que seja oportuno para um post.)

Recapitulando

Primeiro é bom dizer que já fazem uns 8 ou 9 meses que eu reclamo de dores na perna esquerda (região da bunda/coxa) e no pé.

É bom dizer que fiz 20 sessões de fisioterapia para ambos no início do ano apenas para ficar frustrado com a perda de tempo. Não deve-se ainda esquecer que eu corri um Volta da Pampulha no final do ano passado, que estava treinando para a maratona que corri em maio e que agora em julho corri uma meia maratona no Rio e outra meia agora em agosto. Ou seja: eu não estava exatamente pegando leve nesses meses, mas a dor não aumentou nem me impediu de fazer nada.

Durante esse tempo as dores no pé iam e voltavam, idem a da perna.  Ambas não me incomodam para correr de maneira quase nenhuma mas me incomodam no dia-a-dia: o pé às vezes dói ao andar e a perna quando fico sentado muito tempo, principalmente na cadeira do escritório aqui de casa. O pé às vezes dá aquela “pontada” de agulha. Na perna, por outro lado, a dor não é angustiante, mas sim um incômodo que persiste enquanto eu ficar sentado — que é o que eu faço na maior parte do dia.

O primeiro médico que ao qual fui, logo no início do ano, disse que eu estava com fasceíte plantar. O que é isso? Uma dor numa espécie de ligamento que existe no pé e que percorre toda a extensão dele. Para uma explicação mais correta e detalhada recomendo um artigo sobre o assunto na wikipedia em português e a sua versão na wikipedia em inglês, que possui mais referências.

Terapia por ondas de choque

Fui para um ortopedista com especialidade em pé sexta passada apresentar o resultado da ressonância magnética que fiz sob pedido dele. Esse médico me foi indicado por outro que, por sua vez, me foi muito bem recomendado por várias pessoas do meu grupo de corrida. A fisioterapeuta que me atende também gosta muito do trabalho dele.

Ao olhar a minha ressonância ele disse que eu tinha fasceíte plantar, que é uma doença comum em corredores. Confesso que a essa altura já achava que não, que eu não tinha fasceíte mas sim outra coisa. Enfim, esse diagnóstico também foi feito olhando um raio-x do meu pé, que por sua vez servia para descartar a possibilidade de uma fratura por estresse.  Diagnóstico feito, ele enumerou os tratamentos recomendados e, dentre estes, me indicou fazer terapia por ondas de choque — e é aí onde os problemas começam.

Primeiro porque não é uma “terapia” no sentido que são várias sessões.  Está mais para um “procedimento”. Digo isso porque espera-se que seja apenas uma aplicação. E ela leva anestesia e requer que eu passe umas 24 horas após o procedimento em repouso absoluto,  ”só saindo da cama para ir ao banheiro”. Perfeito, né? Segundo o médico, a chance de sucesso desse procedimento é de 70%. Eu teria ainda que ficar sem correr antes de fazer o tratamento e, após feito, por mais um mês, quando então eu marcaria uma consulta de retorno para ver se “deu certo”.  Caso não dê, segundo disse a atendente do hospital que faz esse tratamento, teria de pagar mais 20% para uma  ”re-aplicação”.

Por outro lado, segundo meu plano de saúde, esse procedimento não está na lista de procedimentos “reconhecidos” ou “cadastrados” pelo mesmo.  Talvez eu possa fazê-lo e ser reembolsado. Talvez não.   O fato é eles ficaram de me dar uma posição sobre isso. Espero que eles possam cobrir os custos porque, a R$ 1000 (mil) a aplicação, não é exatamente algo que eu acho que dê para fazer sem ajuda do plano. Pelo menos não sem ter certeza de que essa é a solução e que esse é realmente o procedimento necessário.

Alongamento

Bom, eu senti confiança (item escasso ultimamente) no médico que me prescreveu esse tratamento mas, dado o custo dele e tudo que ele envolvia, resolvi acatar os conselhos de amigos de pegar uma segunda opinião. Num aniversário sábado passado conheci um amigo de uma amiga minha que é fisioterapeuta e que tinha um amigo médico ortopedista com especialidade em pés.  Conveniente, não? Bom, como ele também não poupou elogios ao amigo, fui lá. Pior do que está não fica, certo?

Nesse meio tempo a dor do pé sumiu mas, como também não estou correndo como corria antes, isso era de certa forma esperado.

Bom, chego lá e existe não um mas dois médicos na sala. O cara olha meu pé, vê que o meu pé não estava doendo, vê a ressonância e diz que sim, que é fasceíte mas que não, que não precisa fazer esse tratamento — e agora é que a coisa fica realmente interessante.

Não preciso fazer esse tratamento porquê ele não presta. Porque em 7 anos em que ele trabalha com ortopedia só viu um caso de precisar de operação. E não, não era tratamento por onda de choque ao que ele se referia. Além disso, como parte do tratamento por terapia por ondas de choque, eu teria de passar um mês sem correr. Ora, mas se você passar um mês sem correr você não vai melhorar de qualquer forma não? Sendo assim, como você pode afirmar que foi o tratamento de R$ 1000 que lhe resolveu o problema ou foi parar de correr? O outro médico, só completava aquilo que o primeiro dizia de vez em quando.

Ele ainda disse que os trabalhos científicos que sugerem o uso desse tratamento possuem uma qualidade 4 ou 5. Pelo que eu saquei, isso quer dizer que eles estão no fundo de uma escala de qualidade e que, no caso particular deles, quer dizer que eles foram feito sem ter um embasamento estatístico correto — não foi usado um grupo aleatório, não houve separação de grupos com quadros similares usando tratamentos distintos, grupo usando placebo etc. A entrada na Wikipedia em inglês para Plantar Fasciitis diz que os estudos (links para esses são providos lá) não são conclusivos sobre a eficácia dessa técnica.

O remédio prescrito? Alongar, 3x por dia a batata da perna. Sim. A perna. A idéia é que o encurtamento da musculatura da perna acaba sobrecarregando o resto da musculatura do pé e isso acaba causando um impacto na fáscia plantar. Ah! E usar uma palmilha para o calcanhar. E retornar em um mês para lhe dizer como as coisas estão. E sim, parar por uma semana. Como eu não estou em treinamento para nenhuma corrida de longa distância, esse é o melhor período para dar uma pausa sem prejuízos ao treino e para dar uma folga tanto para a perna como para o pé.

Assim como o outro havia dito quando lhe indaguei, fazer spining e nadar nesse período, em substituição à corrida, seria o ideal.

Finalmente, ele me deu um concelho: NUNCA, JAMAIS, faça infiltração.  Se quiseram fazer isso, FUJA! Dói horrores na hora, depois parece que fica uma maravilha mas a chance disso acarretar um problema MUITO mais sério (rompimento na fáscia, etc) é enorme.

Terceira opinião

Ainda existe mais um cara a quem eu queria pedir informações e de quem queria recolher opiniões. Ele é um fisioterapeuta amigo de um amigo próximo que, novamente, é muito bem cotado pela qualidade do seu trabalho. Como ele trabalha numa clínica que é especializada nisso (medicina esportiva) imaginei que ele poderia conhecer alguém bom para me recomendar.

Ah! A angústia…

Olha, não sei o que pensar mais.

Por mais que esse último tenha dado mais informações, ligado pontos que eu achava que tinham de ser ligados (a perna e o problema no pé apareceram mais ou menos juntos de qualquer forma), achei muito mágico “só alongar”. Mas faz sentido. De qualquer forma, terei de esperar o plano se pronunciar sobre se eles pagam ou não esse tratamento por ondas de choque. É o tempo de conseguir a terceira opinião.

Chato é a sensação de impotência diante disso. De não saber o que pensar, o que fazer. De ter de ficar pescando pedaços de informação de cada um para pode compor um quadro incompleto. De achar que você está mudando de um “pajé” para outro. De ficar pescando informações na internet e acabar somatizando coisa que você lê, de se auto-sugestionar. Foda é achar que medicina é pseudo-ciência, que o curanderismo e o “assim me parece melhor” são o que me resta. Tenho medo quando começar a desenvolver coisas realmente sérias. Terei de pedir resumés e ver o perfis no Portal da CAPES antes de ir a um médico?

Nesse meio tempo um colega de UFMG muito chapa me mandou o seguinte artigo do NYT que, curiosamente, apóia a linha apontada pelo último médico: Unhappy feet. Um outro artigo só para engroçar o coro: Stretching your body’s fascia can improve exercise results.

Bom, hora do ateu aqui ter fé na ciência. É o que me resta. Só preciso escolher qual profeta escutar.